O PÃO SOBRE A MESA

No comum se esconde o horror.
O PÃO SOBRE A MESA

Não sei se atravessei as brumas eternas de Avalon ou os nevoeiros paralisantes de Ravenloft. Quem sabe vaguei por Silent Hills. Mas uma coisa era certa: o frio. Um frio que nascia nos ossos, profundo como o abismo, e se irradiava, lento e cruel, contaminando cada músculo, cada fio de pensamento. Nenhuma camada de roupa, por mais grossa ou tecnológica, fazia diferença. Era um gelo absoluto, persistente, tão constante e sufocante quanto a própria névoa.

E essa névoa… Ah, essa névoa. Espessa, viscosa, gélida ao toque da pele. Por toda parte, caprichosa, permitindo vislumbres de um mundo desfocado — ora uns poucos metros de chão úmido, ora uma silhueta fantasmagórica a centenas de passos, sempre envolta em véu leitoso. Um jogo perverso de esconde-esconde com a realidade. E mesmo o sol, ao romper a alvorada, não trazia clemência. Sua luz pálida, difusa, mal conseguia trespassar o manto cinzento, transformando o dia numa penumbra eterna e desesperançada. Era somente mais uma mancha fantasmagórica no céu de chumbo, incapaz de aquecer, incapaz de salvar.

E nessa névoa traiçoeira, a atenção precisa ser uma lâmina. Afiada. Constante. Pois dela surgem vultos sibilantes, zunidos agudos que cortam o silêncio desolador, ou formas indistintas que só Deus saberia nomear. Tudo se transmuta em ameaça mortal numa simples viagem. Um vulto que pode ser um veículo desgovernado, um animal enlouquecido, um transeunte perdido… ou algo pior. Objetos arremessados por mãos invisíveis, criaturas que se desprendem de lugar nenhum.

Nessa massa impenetrável, desprovida de qualquer acalento, desvio de uma carcaça. Um pobre cão, vítima dessa névoa imperdoável. E em seu entorno, aves negras dançam macabramente em regozijo pela oferta brumal, enquanto bicos afiados arrancam nacos de carne e rasgam vísceras ainda fumegantes — um banquete grotesco sob o véu gélido.

Não há lógica, somente o instinto primitivo da sobrevivência. Tudo, absolutamente tudo, pode emergir daquela névoa traiçoeira. O perigo não é uma possibilidade; é o ar que se respira, o gelo que queima a pele, a névoa que a tudo devora.

Deixo minha passageira no destino. Antes, um colosso impávido durante toda a jornada, agora se encolhe trêmula, o olhar perdido num vazio gelado que rivaliza com a própria névoa. Não sei se foi o frio que rachou sua alma, os horrores que espreitaram na bruma, ou o peso silencioso de ambos. Não importa.

Minha única certeza é o aperto no peito: terei que engolir cada quilômetro de volta, mastigar cada sombra, reviver cada sussurro da névoa traiçoeira. Despeço-me. Viro a chave. O motor rosna como uma fera acuada. E mergulho de novo naquilo que me aguarda — nas entranhas da bruma, sabendo que o único caminha é atravessá-la.

Em casa. O sol da manhã — pálido e sem calor — testemunhou tudo. A névoa traiçoeira, o cão dilacerado, a passageira quebrada, minha alma esfarpelada ao voltar. Agora, sento aqui, o dia definhando, e o que vejo pela janela não é alívio, mas um presságio:

A manhã foi apenas a artesã cruel. Ela não restaurou; somente escondeu a podridão sob uma luz cinzenta. Moldou o banal em algo que parecia seguro — um copo, uma parede, o pão sobre a mesa — só para me lembrar que tudo é casca frágil. Talvez um oráculo tenha zombado de mim. Ou talvez as brumas sejam mais traiçoeiras do que sonhei… e o veneno delas tenha ficado entranhado em mim.

O que passou, passou. Mas o eco permanece nos ossos. E o frio que a noite traz não é o mesmo. É mais denso. Mais antigo. Mais faminto.

A pergunta não é se virá, mas como virá: ― O que me aguarda quando a noite — verdadeira, completa, sem piedade — descer sobre o mundo que a manhã apenas maquiou?


Write a comment
No comments yet.