O Papel Judaico na Construção da Arte Moderna
- Gertrude Stein (1874–1946)
- Paul Rosenberg (1881–1959)
- Daniel-Henry Kahnweiler (1884–1979)
- Marc Chagall (1887–1985)
- El Lissitzky (1890–1941)
- Chaim Soutine (1893–1943)
- Mark Rothko (1903–1970)
- Barnett Newman (1905–1970)
- Harold Rosenberg (1906–1978)
- Leo Castelli (1907–1999)
- Clement Greenberg (1909–1994)
- Leo Steinberg (1920–2011)
Gertrude Stein (1874–1946)
Escritora e colecionadora americana radicada em Paris, oriunda de uma família de imigrantes judeus alemães de classe média alta. Uma das figuras mais singulares da modernidade cultural. Seu salão no 27 Rue de Fleurus foi talvez o ambiente mais fertil da arte moderna do século XX.
Junto com seu irmão Leo, começou a colecionar arte quando quase ninguém o fazia: Cézanne, Matisse, Picasso, comprados por preços irrisórios quando ainda eram desconhecidos ou escandalizavam o público. O apartamento dos Stein tornou-se ponto de encontro obrigatório para artistas, escritores e intelectuais de toda a Europa e América: Picasso, Matisse, Hemingway, Fitzgerald, Pound e Apollinaire eram frequentadores regulares.
Com Picasso desenvolveu uma amizade profunda e duradoura. Ele a retratou num dos retratos mais célebres da arte moderna (1906), e os dois reconheciam um no outro afinidades de método.
Seu papel na arte moderna é o de catalisadora: criou as condições humanas e sociais para que encontros decisivos acontecessem.
Paul Rosenberg (1881–1959)
Marchand de arte francês de origem judaica. Um dos mais importantes negociantes de arte do século XX.
Representou Picasso durante décadas, numa das parcerias mais longas e frutíferas entre artista e marchand da história moderna. Além de Braque, Matisse, Léger e Marie Laurencin.
Sua galeria na Rue La Boétie, em Paris, era vizinha ao apartamento de Picasso. Rosenberg não apenas vendia a obra de Picasso, ele ajudava a construir sua reputação internacional, organizando exposições em Londres e Nova York e cultivando colecionadores nos Estados Unidos, o que se revelaria decisivo.
Daniel-Henry Kahnweiler (1884–1979)
Marchand, editor e teórico de arte alemão radicado em Paris, oriundo de uma família judia próspera. Kahnweiler foi negociante, mas de um tipo que a história da arte moderna não existiria sem.
Chegou a Paris em 1907, com 23 anos, e abriu uma pequena galeria na Rue Vignon. Quase imediatamente firmou contratos de exclusividade com Picasso, Braque, Léger e Juan Gris — os quatro pilares do cubismo. Num momento em que nenhuma instituição, nenhum museu e quase nenhum colecionador levava o cubismo a sério, Kahnweiler apostou tudo nele. Comprava a produção integral dos artistas, garantindo-lhes estabilidade financeira e liberdade criativa.
Sua importância vai além do faro comercial. Kahnweiler foi um dos primeiros a teorizar o cubismo, no livro Der Weg zum Kubismus (O Caminho para o Cubismo, 1920), análise ainda hoje respeitada.
Marc Chagall (1887–1985)
Pintor bielorrusso de origem judaica, radicado na França. Figura singular na arte moderna por não se enquadrar em nenhuma vanguarda de forma estrita — flertou com o cubismo, o expressionismo e o surrealismo, mas permaneceu sempre fora de qualquer escola.
André Breton chegou a considerá-lo precursor do surrealismo, embora Chagall nunca tenha aderido formalmente ao movimento.
El Lissitzky (1890–1941)
Nome completo Lazar Markovich Lissitzky. Artista, designer, tipógrafo e arquiteto russo-soviético de origem judaica.
Sua contribuição mais original são os chamados Proun (Projeto para a Afirmação do Novo) — composições que habitam um espaço ambíguo entre pintura, arquitetura e design gráfico. Formas geométricas flutuam em espaços sem gravidade definida, criando uma espécie de arquitetura imaginária bidimensional. Os Prouns são ao mesmo tempo obras autônomas e esboços de uma nova visão de mundo.
Lissitzky foi um elo fundamental entre o construtivismo russo e as vanguardas europeias ocidentais. Conheceu Theo van Doesburg, trabalhou com a Bauhaus e divulgou as ideias soviéticas pelo continente. Seu impacto no design gráfico moderno é incalculável: sua tipografia experimental, o uso político do fotomontagem e a integração entre texto e imagem definiram padrões que persistem até hoje.
Chaim Soutine (1893–1943)
Pintor lituano de origem judaica, radicado em Paris. Um dos grandes expressionistas da Escola de Paris — grupo de artistas estrangeiros que transformou a capital francesa no centro da arte moderna nas primeiras décadas do século XX.
Sua pintura é visceral e perturbadora: pinceladas violentas, superfícies retorcidas, cores que parecem gritar.
Soutine influenciou diretamente o expressionismo abstrato americano, sobretudo Francis Bacon e Willem de Kooning, que reconheceram nele um antecessor direto. Sua importância está em ter levado a deformação expressionista ao limite.
Mark Rothko (1903–1970)
Pintor letão de origem judaica, radicado nos Estados Unidos. Uma das figuras centrais do expressionismo abstrato americano e um dos criadores do que se chamou de Color Field Painting — pintura de campo de cor.
Sua obra madura é de uma radicalidade desconcertante: grandes retângulos de cor, com bordas suavemente esfumadas, sobrepostos em fundos igualmente coloridos.
Seu impacto na arte contemporânea é imenso: abriu caminho para a arte minimalista, conceitual e para toda uma tradição de arte que trata a experiência do espectador como parte essencial da obra.
Tirou a própria vida em 1970, no estúdio, aos 66 anos.
Barnett Newman (1905–1970)
Pintor americano de origem judaica, figura central do expressionismo abstrato e um dos fundadores da Color Field Painting, ao lado de Rothko e Clyfford Still.
Sua contribuição mais radical é o conceito do zip — uma faixa vertical de cor que divide (ou une) o campo pictórico. Newman eliminou qualquer resíduo de composição tradicional e afirmou que a pintura poderia existir como pura presença, sem narrativa nem referência ao mundo exterior.
É também um pensador importante: seus textos teóricos, como The Sublime is Now (1948), ajudaram a formular a identidade intelectual do expressionismo abstrato americano.
Influenciou diretamente o minimalismo (Donald Judd e Frank Stella reconheceram sua importância) embora Newman rejeitasse qualquer redução de sua obra a mero formalismo.
Harold Rosenberg (1906–1978)
Crítico de arte e ensaísta judeu americano. Principal rival intelectual de Clement Greenberg e, junto a ele, a voz crítica mais influente do expressionismo abstrato americano.
Seu ensaio seminal The American Action Painters (1952) cunhou o termo action painting para descrever o que artistas como Pollock e de Kooning faziam: a tela como como arena, um espaço onde o ato de pintar era em si o evento, o gesto físico e existencial do artista. A obra resultante era o rastro de uma performance, não um objeto formal.
Essa leitura era profundamente influenciada pelo existencialismo europeu, sobretudo Sartre. A ideia de que o homem se define pelo que faz, não pelo que é. Rosenberg transferiu essa filosofia para o ateliê.
Rosenberg foi também crítico regular do The New Yorker por quase duas décadas, levando o debate sobre arte moderna a um público amplo e culto.
Leo Castelli (1907–1999)
Marchand de arte de origem judaica italiana e austro-húngara, nascido em Trieste. Se Kahnweiler foi o grande intermediário do cubismo e Paul Rosenberg de Picasso, Castelli foi o arquiteto do mercado de arte americano do pós-guerra, o homem que transferiu definitivamente o centro de gravidade da arte moderna de Paris para Nova York.
Abriu sua galeria em Manhattan em 1957 e quase imediatamente revelou Jasper Johns. O MoMA comprou quatro obras na abertura. Em seguida veio Robert Rauschenberg, depois Frank Stella, Roy Lichtenstein, James Rosenquist, Andy Warhol, Donald Judd, Richard Serra. Castelli representou movimentos inteiros (a pop art, o minimalismo, o pós-minimalismo) no momento exato de seu surgimento.
Clement Greenberg (1909–1994)
Crítico de arte americano, filho de imigrantes judeus lituanos de classe média. Não foi artista, mas exerceu sobre a arte moderna uma influência comparável à de muitos pintores. Talvez o crítico mais poderoso do século XX no campo das artes visuais.
Sua tese central, desenvolvida sobretudo nos ensaios Avant-Garde and Kitsch (1939) e Modernist Painting (1960), é que cada arte deveria purificar-se, eliminando tudo que fosse externo à sua natureza específica. Na pintura, isso significava reconhecer e explorar o que lhe é próprio: a planura da superfície, a cor, a bidimensionalidade. Toda ilusão de profundidade, toda narrativa, toda referência literária seria uma concessão impura.
A partir dessa teoria, Greenberg construiu uma hierarquia da arte moderna com centro em Nova York: promoveu com autoridade quase papal o expressionismo abstrato americano — Pollock, de Kooning, Newman, Rothko — e depois o Color Field e o minimalismo de acordo com sua leitura formalista.
Seu problema foi justamente esse poder: ao transformar sua teoria em cânone, tornou-se árbitro e, inevitavelmente, obstáculo. A pop art, a arte conceitual e o pós-modernismo surgiram em grande parte como reação ao dogmatismo greenberguiano.
Leo Steinberg (1920–2011)
Crítico e historiador de arte russo-americano. Filho de Isaac Nachman Steinberg, um importante advogado e político judeu ortodoxo que chegou a ser Comissário de Justiça no primeiro governo de Lenin antes de romper com os bolcheviques. Figura menos celebrada que Greenberg ou Rosenberg, mas intelectualmente mais sofisticado que ambos. E progressivamente reconhecido como um dos maiores escritores sobre arte do século XX.
Sua contribuição mais original é o conceito de flatbed picture plane (plano pictórico horizontal), formulado no ensaio Other Criteria (1972). Steinberg observou que artistas como Rauschenberg abandonaram a superfície vertical da pintura tradicional (que imita o campo visual humano em pé, olhando o mundo) e adotaram uma lógica horizontal, a da mesa de trabalho, do chão, da superfície onde se acumulam objetos, recortes, informações.
Foi também um dos primeiros críticos a levar a sério a pop art e os combines de Rauschenberg, num momento em que Greenberg os descartava como regressão.
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