A Tradição Apostólica — Parádosis
Introdução
A fé cristã nasce e se transmite de forma viva. Antes mesmo de qualquer evangelho ser escrito, a Igreja já anunciava e guardava aquilo que havia recebido de Cristo Nosso Senhor por meio dos Apóstolos. A esse ato de receber e transmitir fielmente a Revelação, a Sagrada Escritura dá o nome de παράδοσις (parádosis), traduzido para o latim como traditio: A Tradição Apostólica, confirmada de maneira unânime pela Igreja pré‑nicena.
Parádosis na Bíblia
O termo grego παράδοσις (parádosis) deriva do verbo παραδίδωμι (paradídōmi), que significa “entregar”, “passar adiante”, “transmitir”. O seu valor depende diretamente da origem e do conteúdo do que é transmitido. Pode designar tanto a fiel transmissão de um ensinamento verdadeiro quanto a mera repetição de práticas humanas que se afastam da verdade.
Em Marcos, 7, Jesus condena tradições que anulam o mandamento de Deus:
1. Reuniram-se em volta de Jesus os fariseus e alguns dos escribas, vindos de Jerusalém.
2. Tendo visto alguns dos seus discípulos comer o pão com as mãos impuras, isto é, por lavar,
3. (porque os fariseus e todos os Judeus, em observância da tradição dos antigos, não comem sem lavar as mãos cuidadosamente;
4. e, quando vêm da praça pública, não comem sem se purificar; e praticam muitas outras observâncias tradicionais, como lavar os copos, os jarros, os vasos de metal, e os leitos),
5. os fariseus e os escrivas interrogaram-no: “Porque não andam os teus discípulos segundo a tradição dos antigos, mas comem o pão sem lavar as mãos?”
6. Ele respondeu-lhes: “Com razão Isaías profetizou de vós, hipócritas, quando escreveu (Is 29, 13): Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim
7. É vão o culto que me prestam, ensinando doutrinas que são preceitos humanos.
8. Pondo de lado o mandamento de Deus, observais cuidadosamente a tradição dos homens.“
9. Disse-lhes mais: “Vós bem fazeis por destruir o mandamento de Deus, para manter a vossa tradição.
O problema apontado não é a existência de tradição, mas a substituição do mandamento divino por costumes humanos. Quando povos bárbaros e outras nações se converteram à fé cristã, não foi exigido o abandono de sua identidade cultural enquanto tal, mas foram obrigados a abandonar costumes humanos incompatíveis com o Evangelho, como sacrifícios humanos, poligamia, infanticídio, vingança tribal, culto aos deuses locais e aos ancestrais como divindades.
Em contraste, São Paulo ordena explicitamente a guarda das tradições apostólicas em II Tessalonicenses, 2:
13. Mas nós devemos sempre dar graças a Deus por vós, ó irmãos queridos do Senhor, porque Deus vos escolheu como primícias para a salvação, pela santificação do Espírito e pela verdadeira fé,
14. à qual vos chamou por meio do nosso Evangelho, para vos fazer alcançar a glória de Nosso Senhor Jesus Cristo.
15. Permanecei, pois, constantes, irmãos, e conservai as tradições, que aprendestes, ou por nossas palavras ou por nossa carta.
16. E o mesmo Nosso Senhor Jesus Cristo, e Deus e Pai nosso, o qual nos amou e nos deu uma consolação eterna e uma boa esperança pela graça,
17. console os vossos corações e os confirme em toda a boa obra e palavra.
Aqui a Revelação é transmitida por dois modos legítimos: oral e escrito. Ambos possuem igual autoridade, pois procedem da mesma fonte apostólica. Assim como colocado por São Pio X no seu Catecismo, parágrafo 5°:
887) Em que consideração se deve ter a Tradição? A Tradição deve ter-se na mesma consideração em que se tem a palavra de Deus contida na Sagrada Escritura.
O mesmo apóstolo elogia a comunidade cristã de Corinto por estar sendo fiel ao depósito da fé apostólica em I Coríntios, 11:
1. Tornai-vos imitadores de mim, assim como também eu sou de Cristo.
2. E eu vos louvo porque em tudo vos lembrais de mim e, assim como vos transmiti, mantendes firmemente as tradições.
Logo adiante, no mesmo capítulo, ao tratar da celebração eucarística, o apóstolo explicita a estrutura formal da transmissão apostólica:
20. Quando, portanto, vos reunis, não é já a ceia do Senhor que celebrais,
21. porque cada um se antecipa a comer a sua ceia. E um tem fome, enquanto outro está excessivamente saciado.
22. Porventura não tendes casas, para lá comer e beber? Ou desprezais a assembleia de Deus e envergonhais aqueles que nada têm? Que vos direi? Louvar-vos-ei? Nisto não vos louvo.
23. Porque eu recebi do Senhor o que vos transmiti: que o Senhor Jesus, na noite em que foi entregue, tomou o pão
24. e, dando graças, o partiu e disse: Tomai e comei; isto é o meu corpo, que é (dado) para vós; fazei isto em memória de mim.
25. Igualmente também, depois de ter ceado, tomou o cálice, dizendo: Este cálice é a nova Aliança no meu sangue; fazei isto em memória de mim, todas as vezes que o beberdes.
26. Todas as vezes que comerdes este pão e beberdes este cálice, anunciareis a morte do Senhor, até que ele venha.
Ainda em São Paulo, em carta a seu discípulo e cooperador Timóteo (II Timóteo, 2), o apóstolo descreve uma cadeia de transmissão da fé:
1. Tu, portanto, meu filho, fortalece-te na graça que está em Cristo Jesus.
2. E o que ouviste de mim, diante de muitas testemunhas, confia isso a homens fiéis, que serão capazes também de ensinar outros.
No original grego, o termo “confia” (παράθου - paráthou) deste versículo compartilha o mesmo prefixo da palavra “tradição” (παράδοσις - parádosis), as iniciais παρά- (pará-). Este prefixo indica “junto a” ou “ao lado de”, ou seja, está indicando o movimento de algo “junto a” outra pessoa, isto é, a transferência de um conteúdo recebido.
Assim, enquanto παράδοσις (parádosis) designa o conteúdo transmitido, παράθου (paráthou) expressa o ato de transmitir esse conteúdo a outro.
Esta passagem é um dos fundamentos mais claros da Tradição Apostólica e da sucessão do ministério.
Além disso, o próprio Novo Testamento reconhece que há coisas além das que foram escritas, em João, 21:
25. Muitas outras coisas fez Jesus. Se se escrevessem, uma por uma, creio que nem no mundo todo poderiam caber os livros que seria preciso escrever.
Parádosis na Igreja pré-nicena
Clemente de Roma (fim do séc. I)
No capítulo 7 da Primeira Epístola de Clemente aos Coríntios, datada de c. 95 d.C., o quarto Bispo de Roma (papa entre os anos 88 e 97 d.C. aprox.), mencionado em Filipenses 4:3 como um colaborador de Paulo no Evangelho, faz uma exortação à fidelidade à tradição recebida da Igreja:
1. Caríssimos, ao vos escrever tais coisas, não apenas vos levamos a refletir, mas também advertimos a nós mesmos, já que nos encontramos no mesmo campo de batalha, nos esperando a mesma luta.
2. Abandonemos, assim, as opiniões vazias e tolas, voltando-nos para a gloriosa e santa regra da tradição [paradóseōs].
3. Vejamos o que é belo, agradável e aceito aos olhos daquele que nos criou.
4. Fixemos a vista no sangue de Cristo e compreendamos o quanto é precioso aos olhos do Pai pois, derramando-o por nossa salvação, ofereceu-o ao mundo inteiro pela conversão.
Na mesma epístola, no capítulo 51, há uma exortação à harmonia transmitida:
1. Peçamos perdão de nossas quedas e faltas ocorridas pela sugestão do inimigo. Mas também devem considerar nossa comum esperança aqueles que se tornaram os líderes dessa revolta e cisão.
2. Pois aqueles que vivem com temor e amor preferem que eles próprios caiam em sofrimentos, em vez de que caiam os seus próximos; e preferem antes suportar a condenação contra si mesmos do que ver condenada a harmonia que nos foi transmitida [paradedoménēs] de modo nobre e justo.
Inácio de Antioquia († c. 107)
O terceiro bispo de Antioquia, um dos mais antigos Padres da Igreja, no capítulo 13 da Carta aos Magnésios, exorta os cristãos a permanecerem firmes naquilo que foi recebido dos apóstolos:
1. Cuidai por conseguinte de permanecer firmes nas doutrinas do Senhor e dos Apóstolos, para que tudo quanto fazeis se encaminhe bem na carne e no espírito, na fé e na caridade, no Filho e no Pai e no Espírito, no começo e no fim, em união com vosso bispo muito digno e a coroa espiritual bem trançada de vosso presbitério e com os diáconos segundo o coração de Deus.
Irineu de Lyon (c. 130 – c. 202 d.C.)
Irineu é um dos testemunhos mais fortes e explícitos da Tradição Apostólica na Igreja primitiva, especialmente na obra Contra as Heresias.
Como no Livro I, capítulo 10, onde ele afirma que a Igreja conserva uma mesma fé, recebida dos Apóstolos e de seus discípulos:
§1. Com efeito, a Igreja, embora dispersa por todo o mundo até os confins da terra, recebeu dos Apóstolos e de seus discípulos esta fé…
E no Livro III, capítulo 3, o bispo de Lyon demonstra que a Igreja de Roma conserva a Tradição dos Apóstolos.
§2. Mas, como seria muito longo, num volume como este, enumerar as sucessões de todas as Igrejas, nós confundimos todos aqueles que, de qualquer modo — seja por complacência própria, por vanglória, por cegueira ou por opinião perversa — se reúnem em assembleias ilegítimas; e fazemos isso indicando a tradição que vem dos apóstolos da Igreja muito grande, muito antiga e universalmente conhecida, fundada e estabelecida em Roma pelos dois gloriosíssimos apóstolos Pedro e Paulo, bem como a fé anunciada aos homens, que chegou até o nosso tempo por meio da sucessão dos bispos. Pois é necessário que toda Igreja concorde com esta Igreja, por causa de sua autoridade preeminente; nela, por aqueles que vêm de toda parte, foi sempre conservada a tradição que vem dos apóstolos [Apostolis traditio].
Clemente de Alexandria (c. 150 – c. 215 d.C.)
Na obra Stromata, Livro VII, capítulo 4, Clemente sublinha a importância da verdadeira tradição:
Assim como, antes da comunicação dos mistérios, consideram correto aplicar certas purificações àqueles que vão ser iniciados, do mesmo modo é necessário que os homens abandonem as opiniões ímpias e se voltem para a verdadeira tradição.
No capítulo 17, ainda no Livro VII, o teólogo afirma a unidade da doutrina e da tradição:
A preeminência da Igreja, como princípio de união, consiste em sua unidade, e nisso ela supera todas as coisas, não tendo nada semelhante ou igual a si mesma.
Das heresias, algumas recebem seu nome de pessoas, como a que vem de Valentim, a de Marcião e a de Basílides, embora se vangloriem de possuir a opinião de Mateus; pois a doutrina dos apóstolos e a tradição são uma só.
Tertuliano (c. 160 – c. 230 d.C.)
O pai da teologia latina, como ficou conhecido Tertuliano, escreveu o tratado apologético De Praescriptione Haereticorum. No capítulo 21 da obra, Tertuliano argumenta que a verdadeira doutrina deve vir dos apóstolos, ser preservada nas igrejas apostólicas e concordar com a regra da fé transmitida:
A partir disso, portanto, estabelecemos a prescrição: se o Senhor Cristo Jesus enviou os apóstolos para pregar, não devem ser recebidos outros pregadores senão aqueles que Cristo instituiu;
porque ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o revelou; e o Filho não parece tê-lo revelado a outros senão aos apóstolos, aos quais enviou para pregar, isto é, aquilo mesmo que lhes revelou.
E aquilo que eles pregaram — isto é, o que Cristo lhes revelou — também aqui estabeleço como regra que não deve ser provado de outro modo senão pelas mesmas Igrejas que os próprios apóstolos fundaram, pregando-lhes eles mesmos tanto de viva voz, como se costuma dizer, quanto posteriormente por meio de epístolas.
Se essas coisas são assim, segue-se portanto que toda doutrina que concorda com aquelas Igrejas apostólicas — mães e fontes originais da fé — deve ser considerada como pertencente à verdade, pois certamente mantém aquilo que as Igrejas receberam dos apóstolos, os apóstolos de Cristo, e Cristo de Deus.
Toda doutrina, porém, deve ser previamente julgada como procedente da mentira se tiver sabor contrário à verdade das Igrejas e dos apóstolos de Cristo e de Deus.
Resta, portanto, que demonstremos se esta nossa doutrina, cuja regra acima apresentamos, deve ser considerada como proveniente da tradição dos apóstolos [apostolorum traditione], e se, por isso mesmo, as demais procedem da falsidade.
Nós mantemos comunhão com as Igrejas apostólicas, porque nenhuma doutrina nossa é diferente da delas. Este é o testemunho da verdade.
Orígenes de Alexandria (c. 185 – c. 254 d.C.)
Orígenes escreveu a primeira grande síntese sistemática da teologia cristã: “Sobre os Primeiros Princípios” (De Principiis). Nela, o teólogo estabelece um critério de ortodoxia baseado na tradição já no Prefácio:
§2. Como há muitos que pensam possuir a doutrina de Cristo, e alguns deles pensam de modo diferente de seus predecessores, entretanto, como a pregação da Igreja, transmitida em ordem de sucessão a partir dos Apóstolos e permanecendo nas Igrejas até o presente, ainda é preservada, somente deve ser aceita como verdade aquilo que em nada difere da tradição eclesiástica e apostólica [ecclesiastica et apostolica traditione].
Conclusão
Desde os próprios escritos apostólicos até os testemunhos unânimes da Igreja pré-nicena, verifica-se que a fé cristã foi concebida como uma realidade viva transmitida na Igreja. O próprio Novo Testamento nasce dentro dessa tradição. Por isso, desde os Apóstolos até os Padres da Igreja, a regra da fé veio do que estava escrito e também do que havia sido recebido, guardado e transmitido na comunhão da Igreja.
“A gloriosissimis duobus Apostolis Petro et Paulo Romæ fundatæ et constitutæ ecclesiæ.”
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