Símbolos iguais, mundos diferentes... um problema

Por que é tão difícil retirar o homem da militância, da agência dos discursos e das propagandas?
Símbolos iguais, mundos diferentes... um problema

No Facebook e no Substack coloquei-me a externar uma opinião em que uso da dúvida para fim de provocação, na qual continha a finalidade de gerar uma reflexão com base nas reações populares aos ataques de Trump ao Papa Leão XIV em via de usar da posição da Igreja para, pelo menos, tentar defender projetos políticos que se aproveitam do antiamericanismo e do antissionismo, essa questão era: “é tão complicado as pessoas — simplesmente — não se intrometerem em questões que não as competem?”. Prossegui o texto expondo a ideia de que “um católico não deve prestar apoio a um grupo específico dentro de uma relação de conflitos entre dois ou mais grupos por via de vínculo e afinidades que possuam base em simpatias por imagens, discursos, propagandas e etc.”, que “tomar posição em conflito que não é de seu grupo passa pela falta de piedade para com o outro, o dever [da Igreja] é de prestar apoio aos feridos, não de tomar partido em auxílio às narrativas alinhadas aos projetos políticos que buscam a transformação do homem e do tempo [revoluções]”. No texto deixei claro que essa ideia implica em compreender a posição bastante correta do Vaticano em não apoiar Trump, mas que depõe contra católicos leigos que se declaram pró-Irã e pró-Israel mesmo tendo eles nenhum laço real com essas duas civilizações — há com eles um laço abstrato de simpatismo advindo de ideários de mundo, no máximo.

Certo que essa posição de não se situar por dentro do conflito é totalmente distinta da de ter indiferença para com a dor alheia e do falso pragmatismo de “permanecer em cima do muro por questões diplomáticas”. Estou tratando de compreender o outro e não querer usar o outro a seu benefício, de ser justo e não querer se alimentar da carniça dos despojos oriundos de guerras alheias.

Ocorre que fui infeliz na questão “é tão complicado as pessoas não se intrometerem em questões que não as competem?” pois eu, ao fazê-la, não pensei nas estruturas do mundo e nos processos de formação dos humanos por dentro dessas estruturas, em suma, não pensei no “outro” que está no lado criticado do discurso, apenas no “outro” presente no conflito tratado como objeto, passivamente ou ativamente. Compreendo que é fácil eu, em minha posição de externalidade do conflito, tratar do problema sem ler a cognição de quem se vê na necessidade, ou interesse, de participar do conflito por seus modos.

Por mais que minha exposição esteja em acordo com a posição histórica da Igreja Católica, a pergunta inicial dá a entender que os indivíduos que tomam guerras alheias para si compreendem a dimensão de suas situações, quando na prática não. Este artigo, portanto, é uma resposta para mim, como também é a proposta de uma reflexão sobre as diferentes ontologias em disputa nas crises e que estão visíveis em redes de fluxos informacionais — sei, termos até então complicados que soam como verborreia, porém buscarei ser sucinto ao usá-los para vos introduzir nessa discussão, quando trato de “fluxos informacionais” me refiro aos processos de circulação de informações, isso é, aos discursos, às imagens, narrativas, conteúdos e et ceteras em distribuição e propagação.

A pergunta inicial “é tão complicado…” precisa ser reformulada para que possamos tratar desse problema pelo olhar de uma antropologia das ontologias múltiplas, portanto o problema passa a ser “por que é tão difícil retirar o homem da militância, da agência dos discursos e das propagandas?”, isso é, por que é tão difícil corrigir aqueles que, mesmo no mundo dentre outros mundos, ainda possuem vícios de estruturas de fora do mundo? Como exemplo a constante luta contra um corpo a ser sacrificado — bode expiatório¹ (Girard, 1982) — pela lógica do outro (exógeno), a luta por revoluções pela lógica do outro e o romantismo da resistência² (Asad, 2003) pela lógica do outro, etc.

1ª observação sobre as disputas: linguagem

Como primeiro caso em exemplo para tratar do plano do olhar e da linguagem trago aquele envolvendo Frei Gilson e os ataques de feministas contra o sacerdote, ataques levantados por decorrência de uma homilia na qual o frei condenou a mentalidade moderna sobre a mulher católica pela sedução do empoderamento. Percebamos que a linguagem de discurso sempre carece de explicitação sobre os mundos originais da linguagem usada, no caso do Frei Gilson o discurso foi pastoral e direcionado aos católicos, não ao mundo externo.

O termo “empoderamento” é, para a lógica moderna e secular, distinto do “empoderamento” no mundo das tradições e das cosmologias profundas, que compreende a origem do poder com base no sobrenatural — o poder erguido pela mentira é um falso poder, mesmo cedido pelo preternatural sem a participação de Deus (Mt 4:8–10), pois é um poder efêmero e com dívidas a serem pagas eternamente (condenação).

Para o mundo da modernidade, o empoderar passa por crer que o ser é capaz de obter poder por si próprio, hoje (após o Século XX) a expressão carrega o olhar foucaultiano das relações de poder com base nos termos da modernidade, sem uma metafísica explicitada e tornando o humano pivô dos cursos da realidade (lógica liberal), enquanto, para o mundo das tradições, o empoderar, nos termos do secularismo moderno, é apenas um equívoco, pois é uma busca por agência³ que desconhece — ou busca anular o conhecimento sobre — a origem sobrenatural do poder legítimo.

Evidentemente, na cosmovisão católica, o empoderamento moderno não condiz com a Lei e os ensinos de Deus, não só aos cristãos, a mesma cautela com o empoderamento há nas demais tradições religiosas monoteístas abraâmicas.

O mesmo cabe para além do empoderar, as revoluções, as nações, soberanias, dignidade humana, direitos, paz e demais outros termos possuem olhar, semântica e léxico distintos se comparados por fora dos universos dos nativos.

2ª observação sobre as disputas: natureza

Se tornou comum a defesa política do islã n’Ocidente com base na propaganda de ativismo antissionista e cooptação de católicos para a militância pró-islâmica por via das simpatias. Um dos mitos propagados é a necessidade de união católica-islâmica contra o sionismo com base na justificativa de que “muçulmanos são irmãos próximos dos católicos, pois os muçulmanos veneram muito Jesus e Maria, diferente dos judeus”, junto há a construção de uma imagética de aliança católica-islâmica contra uma ordem regida por uma união EUA (protestantismo e maçonaria) + Israel (judaísmo) + Europa (secularismo). Por certo, é uma verdade que as figuras do Cristo e da Virgem nos mundos católico e islâmico são as mesmas, entretanto apenas, pois as demais propriedades são distintas de modo a fazer que Jesus Cristo do mundo católico, Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, não seja Īsā.

Nossa Senhora, Virgem Maria Theotokos, se distingue profundamente de Maryam. A coincidência nominal e a partilha de certos atributos exteriores (virgindade, piedade, proximidade ao Messias) não constituem identidade real entre as duas figuras. São Tomás de Aquino, ao tratar de suppositum e da identidade das substâncias, ensina que o que faz de uma coisa esta coisa e não outra é o sujeito concreto que sustenta os acidentes (suppositum) (STh I, q. 29, aa. 1-2; STh III, q. 2, aa. 2-3). Um título pode ser partilhado por duas realidades essencialmente distintas: ‘rei’ designa o monarca legítimo e o usurpador sem que ambos sejam a mesma coisa; o que os distingue não é apenas o nome. Maria Theotokos é quem é porque é Mãe de Deus feito carne e é precisamente esse suppositum divino que o islã rejeita de modo constitutivo (STh III, q. 2, a. 2). Maryam é honrada como mãe de um profeta criado e Theotokos é venerada como Mãe do Verbo eterno. A distinção é de natureza.

A identidade de um ato religioso (veneração, oração, invocação, ascese) é determinada pelo objeto formal a que o ato se dirige, não pelo nome e nem pela imagem. São Tomás mostra que os atos se especificam pelos seus objetos (actus specificantur ab obiectis) (STh I-II, q. 18, a. 2). A latria e a dulia são atos distintos porque seus objetos formais são essencialmente diferentes (STh II-II, q. 81, a. 5; STh II-II, q. 84, a. 1). Donde se segue que invocar “Maria” no interior do mundo semântico católico e invocar “Maryam” no interior do mundo corânico são atos dirigidos a objetos formalmente distintos, ainda que os gestos exteriores se assemelhem. A veneração muçulmana de Maryam não converge com a veneração católica de Nossa Senhora do mesmo modo que a adoração de um ídolo homônimo não converge com a adoração do Deus verdadeiro pela partilha do nome.

Essas distinções são pertinentemente expostas no documento Dominus Iesus (Congregação para a Doutrina da Fé, 2000), que distingue a fé teologal, como aceitação da verdade revelada por Deus Uno e Trino, da crença nas demais tradições religiosas, apontando que a frequente identificação entre as duas é a razão pela qual se tende a anular as diferenças entre o cristianismo e as outras religiões (§7), e que deve crer-se firmemente que Jesus de Nazaré, filho de Maria, e só ele, é o Filho e o Verbo do Pai, sendo contrária à fé qualquer tese que separe o Verbo eterno de Jesus de Nazaré ou que o Logos teria assumido múltiplas figuras históricas ao longo do tempo (§10). Tal como o documento trata do cristianismo comparado às demais religiões, também deve ser compreendido o cristianismo comparado às religiões políticas da modernidade.

Ocorre que no plano da propaganda, no mundo moderno e secularizado, essas distinções são ocultadas para efeito de expansão “territorial” das mentes e das almas. Os propagandistas ideológicos, portanto, entregam as figuras, as semelhanças exteriores e os termos sem apresentar aos receptores do discurso os sentidos e as verdades contidas por trás da imagética propagada.

O efeito dessa ocultação passa pela disputa de versos, pois se oculta a distinção presume, portanto, que os termos do mundo do propagandista são os termos legítimos e preponderantes, dessa forma os sentidos do verso do receptor são anulados, esvaziando o verso do receptor e preenchendo esse vácuo com os discursos e narrativas do propagandista.

Seguindo o exemplo cá apresentado: ao crer que Maria Theotokos é também Maryam, o dogma de Theotokos é rejeitado pois há a inconciliabilidade entre um e outro. O fato de alguns nativos do mundo externo ao mundo católico venerarem Maria não diz que a veneração é a mesma ou que a Santa Virgem é vista da mesma forma, ou que Nossa Senhora é a mesma em ambos os universos.

3ª observação sobre as disputas: espaço

As comunidades religiosas no Ocidente contemporâneo existem, assim, como enclaves dentro de uma sociedade secular integrada, desse modo, nenhum católico, mesmo formado em um lar católico e em uma comunidade católica, por exemplo, está salvo de influências do mundo externo que avançam em seu território formador.

O espaço secular integrado funciona, portanto, como o ambiente no qual as disputas de mundos descritas nas observações anteriores ocorrem, pois a propaganda precisa apenas que o receptor leia os termos do mundo alheio com os reflexos formados pelo espaço secular compartilhado. A familiaridade aparente dos termos, das figuras e dos gestos faz o trabalho de instrumentalizar a captura de mentes e almas.

Os espaços da modernidade são dissociados e exigem de humanos diferentes posturas, diferentes dialetos e diferentes visões em relação às exigidas nos espaços de suas estruturas formadoras, logo, os espaços que concatenam muitos mundos se preenchem dos termos do secularismo, posto como língua franca entre mundos, liberalizando por dentro os seres nele inseridos, assim incute nesses seres todos vícios apontados no início deste artigo.

Ao que sabemos, a transformação forçada, ainda que sutil, do “ego” (“eu”) pela exposição aos discursos e pelas associações de relações sociais contraria a forma tradicional da vida humana em comunidade. Esse constante fluxo entre mundos torna imperceptível o processo de transição entre o enclave e o entorno, fragilizando o humano na dissociação dos sentidos e significados dos símbolos e da linguagem.

Conclusão

A pergunta reformulada encontra resposta nas três observações apresentadas. O humano capturado pelo mundo das militâncias (moderno e secular) opera dentro de estruturas viciadas que lhe precedem, que lhe formaram a linguagem e que lhe forneceram as imagens pelas quais interpreta o mundo. Os fluxos informacionais transportam ontologias inteiras.

Retirar o homem dessa condição exige a explicitação das ontologias em disputa, a nomeação dos mundos que os termos carregam consigo antes da instrução em matéria de correção. A militância por simpatias é sintoma da capacidade que os fluxos informacionais contemporâneos possuem de penetrar qualquer mundo e ofertar termos familiares com supposta alheios, processo que prescinde da ignorância ou da má-fé do receptor.

Referências

AQUINO, Tomás de. Suma Teológica. Tradução de Aldo Vannucchi et al. São Paulo: Loyola, 2001-2006.

ASAD, Talal. Formations of the Secular: Christianity, Islam, Modernity. Stanford: Stanford University Press, 2003. ISBN 978-0-8047-4768-4.

CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ. Declaração Dominus Iesus sobre a unicidade e a universalidade salvífica de Jesus Cristo e da Igreja. Roma: Santa Sé, 6 ago. 2000. Disponível em: https://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_con_cfaith_doc_20000806_dominus-iesus_po.html. Acesso em: 4 mai. 2026.

GIRARD, René. O Bode Expiatório. Tradução de Ivo Storniolo. São Paulo: Paulus, 2004.

Notas de rodapé

[1] Por “bode expiatório” entende-se o mecanismo pelo qual uma comunidade em crise projeta sobre um indivíduo ou grupo a responsabilidade pela desordem coletiva, sacrificando-o para restaurar a unidade social. O conceito é central na obra de René Girard, para quem a violência fundadora das sociedades humanas opera sistematicamente por essa lógica de substituição e expulsão (Girard, 2004).

[2] Por “romantismo da resistência” entende-se a tendência de idealizar o ato de resistência como expressão natural da liberdade e soberania do sujeito humano, pressupondo que o poder é sempre externo e repressivo ao agente e que cabe a este opor-se a ele para superar o sofrimento e o desempoderamento. Talal Asad aponta que essa tendência deriva de uma questão metafísica implícita sobre a natureza da liberdade humana e sua relação com o poder (Asad, 2003, p. 71).

[3] Por “agência” diz-se o ato de agir; agente é aquele que age, portanto a agência é a capacidade de ação. O conceito foi popularizado na sociologia por Anthony Giddens (A Constituição da Sociedade, 1984), que o opõe à estrutura: o agente é capaz de agir de outro modo do que age, mesmo dentro de estruturas condicionantes. No presente artigo, “agência dos discursos e das propagandas” designa o processo pelo qual o indivíduo passa a agir como agente de um discurso exógeno, crendo agir por vontade própria — o que na tradição sociológica mais crítica, de Althusser a Bourdieu, é descrito como interpelação ideológica e habitus respectivamente. A distinção é relevante porque a captura por uma propaganda é fenômeno estrutural, opera sobre indivíduos posicionados dentro de fluxos que lhes precedem e que lhes fornecem os próprios termos nos quais se pensam.

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