Cavalo de Troia na política brasileira: o mito do político libertador outsider
A disputa eleitoral paulistana pela prefeitura sucita as opiniões de todos os nacionais brasileiros a ponto em que na minha cidade pouco se sabe, por parte da população local, sobre os candidatos às eleições municipais para a prefeitura do município, mas os cidadãos dessa minha cidade sabem bastante sobre os candidatos pela disputa paulistana. Quiçá o mesmo fenômeno ocorra por além de minha cidade, pode ser o caso de Xique-Xique BA, Sorriso MT, Uruguaiana RS, Cabedelo PB, Ananindeua PA e outras pelo Brasil, é certo que em algum subúrbio de uma cidade distante da cidade de São Paulo um jovem, numa noite com a família, discutiu com algum parente sobre qual é a melhor opção para a prefeitura de São Paulo.
A questão em voga passa por um dilema qual não possui resposta certa: “qual a melhor opção?” — inexiste. O sujeito chega na cogitação em seguinte → ora, se não há uma boa opção, ei de ir na “menos pior”, e qual é, em tese, a menos pior? Explico, para o sujeito a menos pior é a qual se adequa, ou quase se adequa, às suas ideologias e que menos possui polêmicas sobre sua imagem (ou não, a depender). Antes respondo porque inexiste a “melhor opção”: a política n’América Latina é um conjunto de contos articulados e planejados para atender desejos e anseios de grupos em específico (elites, tanto financeira como burocrática), de forma que todas as decisões são exercidas com as portas fechadas sem consentimento popular, tal como apontado no artigo “Modernization and Bureaucratic-Authoritarianism: Studies in South American Politics” de Guilhermo O’Donnell. Por lógica, se há uma força superior no plano político que rege as decisões em contragosto das massas, assim subvertendo a “democracia”, a força inferior é submissa à superior, deduzimos então que eleger X ou Y é ineficaz se o sistema ainda é o mesmo, o que pode mudar é a capacidade de, mesmo submisso por interesses superiores, o político conseguir articular determinadas medidas que atendam anseios de comunidades do município, sejam essas constituídas por parcelas da sociedade civil presente na cidade ou por conjunto de moradores de bairros, distritos e regiões, essa concepção de “menos pior” é a mais pragmática e distante do ideário voltado à aproximação ideológica, assim é relacional, mas no todo existe àquele que possui um projeto voltado à destruição gradual da cidade, do país e da província ou estado, outros possuem projeto semelhante porém menos agressivo, portanto o aceitável é aquele que atende o segundo perfil de projeto. Existe a escolha moralmente viável, porém é em regra inexpressiva pois a política moderna condena as virtudes.
Na prática o eleitor não vê dessa forma pragmática apontada anteriormente, o eleitor, nesse caso, elege visando potencializar o poder político da figura apoiada, transforma então a sua participação política em uma moeda de confiança para a figura que se lança ao cargo em específico, nessa situação percebe-se que o eleitor não visa a comunidade, os moradores e demais aspectos práticos e humanos da sociedade local, mas visa um plano político por contaminação da “politização civil”. Por participação política entende-se agora a necessidade de atentar às 1) formas dela e 2) ao modelo político brasileiro, sua fundamentação sistemática e na articulação das forças civis para exercer participação. A começar pela primeira, sabe-se que existem no país três visíveis formas de participação: o associativismo comunitário, as atividades de protesto (Bonifácio, p. 38-39) e o voto. Pelo voto insere-se aquele exercido pelo cidadão em pleitos eleitorais, em plebiscitos e referendos.
As formas invisíveis contemplam o boicote, o investimento, o desinvestimento e a omissão de bens por via de sonegamento ou retirada do patrimônio próprio presente no país (teoria das bandeiras). Partindo para o segundo ponto, há de serem observadas as tendências conflitantes hoje entre o representativismo democrático, com suas bases afrancesadas e americanizadas, que ao se repetirem em fracasso constante mediante tentativas de se levantar representações populares genuínas — tendo em vista que a nova geração de políticos tende a ser uma geração criada por fundações e institutos ligados ao poder financeiro alinhado ao legacy e geram, por consequência, desgaste da democracia representativa liberal, levando a população a utilizar da participação política por via do voto como principal forma de mudar o “destino” político das instituições, não mais como forma de buscar soluções dos problemas infraestruturais locais. Esse movimento gera as ditas “ondas” políticas e em forças dialéticas que trocam seus elementos facciosos de posições e cargos conforme o avanço do poder do Estado e das elites.
Podemos apontar um sintoma desse fenômeno, e esse é a propagação dos “deputags”, ou “politags” no caso de outros cargos, trocadilhos que denotam o perfil de político de rede social, perfil marginal ao processo de formação dos políticos insiders formados pelas fundações financeiras e inseridas no plano político inicialmente como lideranças de movimentos, que por não ser este perfil oriundo do “seio” da política recorre à guerrilha informacional digital para ascender politicamente. Posteriormente destes que são políticos distantes do cerne da formação política aparece e reaparece o arquétipo político do “outsider”, que ao ascender em alto cargo da representatividade expõe as distorções do modelo político, uma vez que 1- desde sua gênese não visava “que os governantes sejam semelhantes àqueles que eles governam” (Manin, p. 2), e 2- o modelo de governo representativo “foi criado como um regime em que um órgão decisório coletivo deveria ocupar uma posição central” (Manin, p.6), porém que o processo de usurpação da estrutura política pelo aparelhamento incentivado pelas elites obriga o governante “ideal” e massivamente popular a ser uma mimese do cidadão comum para suprir o sentimento de desamparo mediante a falta de representação, no caso do Brasil esse fenômeno é confundido erroneamente com o populismo.
Assim, adianto: os fenômenos são cíclicos e todo outsider se torna insider após lançado à política, assim, soma-se à mimese dos figurões tradicionais às novas tendências de disseminação da imagem para obtenção de votos, o que mudou não foi a inserção do outsider nas disputas políticas, mas a inserção do plano virtual e no armazenamento de falas, imagens, fotos, vídeos e entrevistas, somados aos detalhes nesses conteúdos armazenados. Esse amontoado de mudanças na dinâmica da propagação da imagem solidificam o outsider como figura forte para, em tese, bater de frente contra o sistema. Nessa brincadeira é visível os debates transformados em palanques para “mitadas” e “lacrações”, é visível as entrevistas sendo transformadas em ringue de briga ideológica contra jornalistas e também é visível a transformação da imagem do “influenciador” em um “libertador”. Essas transformações são espontâneas, agradam parte das massas, entretanto pouco se vê a respeito de projetos sólidos, argumentos, contrargumentos, planos e demais aspectos essenciais para convencer parcelas da sociedade civil que estão imersas em atrasos infraestruturais.
Erram aqueles que creem na veracidade do aumento de eleitorado com base nas “mitadas” em redes sociais, no caso da política local e regional a vitória se dá por via do contato: ir às comunidades, dialogar com lideranças locais, articular com setores do comércio e das indústrias, e etc. De nada adianta ao outsider, em nível local, tentar a prefeitura se o aumento de seguidores em redes sociais se dá por interesse de indivíduos externos ao município qual ele busca consolidar sua vitória, se essa é a estratégia do político logo pode-se deduzir que o mesmo não quer vencer as eleições, mas sim enganar seu eleitorado — vendendo esperanças — para, enfim, buscar posteriormente um cargo maior usando seus números como trunfo, seja para se lançar ou para indicar outrém. Nesse caso o outsider não possui honra, e se não possui honra não é confiável para receber voto de qualquer cidadão que esteja desesperado com o panorama político do próprio município.
Em muitos casos o outsider é desprovido de honra, mostra-se contrário ao sistema e então, após eleito, nomeia sujeitos ligados aos demais vermes presentes na política, ou então se transforma para expandir eleitorado, nesse caso o político ateu vai à missa e comete sacrilégio, o político cristão vai à uma loja maçônica jurar apoio e lealdade aos amigos maçons, o político que antes publicou foto em elogios com um ministro questionável do Supremo Tribunal Federal passa a alegar perseguição por parte da mesma força qual faz parte o figurão antes elogiado, e por aí vai. Existem muitos casos no qual o outsider, ou o que se coloca como um, se mostra desprovido de honra: o presidente da Argentina, Javier Milei, assumiu relacionamento amoroso com uma ex-vedete; Jair Bolsonaro, que diz-se católico, casou-se três vezes, indicou opositores para cargos chaves e traiu eleitorado; Rosane Malta, ex-esposa de Fernando Collor de Mello, acusou o ex-marido e ex-presidente de ter cometido adultério e violência doméstica contra ela ainda quando casados; João Dória foi conivente com as políticas de lockdown durante a crise pandêmica do COVID-19, entretanto não cumpriu com as recomendações sobre o isolamento social; Volodomir Zelensky fez apresentação “humorística” usando o próprio falo, vulgarmente, sobre um piano; Pablo Marçal por diversas vezes se mostrou como charlatão, colocou vida de alunos e seguidores em risco e incentivou um aluno com problemas cardíacos a competir em uma maratona e assim resultando no falecimento do aluno; Donald Trump fazia sexo com prostitutas; O Lula, que foi um outsider até chegar na presidência, mantinha amantes — portanto era adúltero — e mantém amizades com ditadores de índoles controversas, além de ter sido acusado inúmeras vezes por corrupção. Ocorre que, dessa forma, fica exposto que não ser político não significa que o sujeito possui virtudes em demasia comparado aos políticos tradicionais.
Iniciada as exposições sobre a real face dessas figuras tidas como outsiders seus defensores dão as caras e acusam àqueles comprometidos com a verdade de favorecer candidatos opositores aos outsiders, algo sem pé e nem cabeça, uma vez que a Verdade é somente uma e não deve ser omitida para garantir a vitória de candidatos políticos. Estes apoiadores querem maquiar a figura e criar no imaginário coletivo um “libertador” desprovido de sujeiras na vida pública e que está contra tudo e contra todos, porém que, na prática, tudo não passa de programação neurolinguística na qual a sensação de segurança e o sentimento de esperança do sujeito está diretamente relacionado à defesa do discurso do político qual ele se sujeita a votar, portanto o político desejado por parte da população, nesse caso, é um problema e deve ser exposto como um, pois esse serve para alimentar as esperanças do povo sobre o sistema sócio-político vigente, é o que faz a população se acomodar e delegar a mudança geral para terceiros.
Por tais motivos apresentados o outsider, como moralizador da política, é um Cavalo de Troia. Esse arquétipo de político existe para enganar, ludibriar e mentir por via da imagem, favorece a desordem e o caos através do sabotamento interno, assim compromete a real chance de mudança geral e de derrubada do sistema, que é por fora do legacy, assim, portanto, por via da participação negativa na política: boicotes, abstenções, desinvestimento (maximalismo e bitcoin), fronteirismo em alguns casos, desobediência civil e etc. Não bastando esse arquétipo estar atuando para atrasar o processo de desmascaramento do sistema o mesmo arquétipo ascende em operação dialética que fortalece o sistema, não somente, como também lucra e se vende para se sustentar no mesmo sistema qual outrora colocava-se como inimigo. Dentre esses outsiders temos dois tipos: os sonhadores bem intencionados e os trambiqueiros picaretas em busca de glórias pessoais e poder, em ambos os casos temos vícios que vão desde a ingenuidade até a ambição, portanto votar no outsider por crer piamente que esse é um libertador equivale a convir com a destruição da sociedade e da civilização gradualmente sobre o mesmo processo dialético exposto no texto “Europa ruma para a direita, qual a pegadinha?”.
REFERÊNCIAS BONIFÁCIO, Robert. Participação Política no Brasil. Em Debate , v. 4, p. 34-45, 2012. MANIN, Bernard. As Metamorfoses do Governo Representativo. Revista Brasileira de Ciências Sociais, nº 29, 1995. O’DONNELL, Guilhermo. Bruneau TC. Modernization and Bureaucratic-Authoritarianism: Studies in South American Politics. Politics of Modernization Series, No. 9. Berkeley: Institute of International Studies, University of California, 1973. Pp. 219. American Political Science Review. 1976;70(3):992-993. doi:10.2307/1959908
Write a comment