Uma crítica ao pensamento crítico

Ad veritatem
Uma crítica ao pensamento crítico

Hoje muito se fala do tal “pensamento crítico”. Nas escolas, na Internet, em conversas cotidianas, sempre alguém fala da importância de se desenvolver essa capacidade. Tornou-se uma virtude, invocada por praticamente todo tipo de cosmovisão. E quando tantas opiniões diferentes estão usando o mesmo termo, quer dizer que aí tem coisa.

Muitas vezes, quando um termo está constantemente presente no debate público, há grandes chances do significado deste ser desconhecido mesmo por quem o usa, de modo que nem mesmo saiba dar uma definição exata. Isso leva qualquer termo a ser usado mais como ferramenta retórica do que qualquer outra coisa.

Algumas definições que encontrei foram:

  1. Pensamento crítico é uma avaliação voluntária diante de um fato, comentário, experiência ou conteúdo, que usa argumentos para determinar uma resposta diante desse estímulo. Ou seja, o pensar de modo crítico envolve uma observação inicial, seguida por um julgamento diante de um cenário com o qual se depara.

  2. Pensamento crítico é a análise de fatos para formar um julgamento.

  3. O pensamento crítico, isto é, a capacidade e a disposição de avaliar proposições e de ser movido por boas razões […]

  4. Pensamento crítico é a capacidade de analisar informações de forma lógica, refletida e fundamentada. Trata-se de uma habilidade que permite questionar ideias, identificar argumentos falhos e tomar decisões mais conscientes.

Tudo isso é um tanto vago. Afinal, qual é a diferença entre isso e o simples ato de pensar com clareza? Ou uma análise bem feita? Um estudo?

Com tal definição, um marxista, um liberal clássico, um cientificista e um tradicionalista podem todos dizer que defendem o pensamento crítico.

Se o que se apresenta como diferencial é o ato de submeter uma coisa a um exame e com isso chegar a uma resposta mais próxima possível da realidade, não há diferença substancial disso em relação ao método socrático, ao silogismo aristotélico ou a quaestio disputata escolástica.

Nada novo sob o Sol. Porém, o “pensamento crítico” ainda é apresentado como algo novo, da sociedade pós-moderna. Sendo assim, certamente há influência do seu tempo, um tempo que rompeu com a busca da verdade objetiva. É fruto de pensadores como Descartes, Hume, Kant, entre outros, que tanto buscaram romper com a metafísica clássica e medieval, criando um homem que não busca verdades universais, mas validação de suas próprias premissas.

Por ser tão vago, o que se vê, na prática, não é um desejo de se alcançar a verdade como se tinha nos métodos supracitados. Tem-se, sim, uma vontade de deslegitimar e desqualificar de forma seletiva. Há o incentivo a expor às críticas certas crenças, instituições e premissas, enquanto outras são blindadas por rótulos como “consenso”, “ciência estabelecida”, “empatia”, “fora de debate”.

Ora, questionar, criticar ou julgar não é nenhuma grande habilidade a ser desenvolvida. Isso já está contido em qualquer um, principalmente em adolescentes, desde antes da Internet. A dúvida nada mais é do que o princípio básico do conhecimento, de onde parte a busca pela resposta. Não dá para dizer o que algo é, simplesmente listando tudo aquilo que ele não é.

Geralmente, os termos “pensamento crítico” e “alienação” são usados juntos, de modo que um é antagônico ao outro. Pensador crítico é aquele que o reivindica, que discorda do status quo que ele mesmo desaprova, enquanto alienado é o outro, aquele que discorda dele.

Desta forma, o sujeito deve expor às críticas tudo aquilo que ele considera alienante. Religiões, Igreja, família, sociedade, Estado, mídia, professor, tradição: pode escolher qual opção mais o atende e, a partir disso, formular seus julgamentos, rejeitando premissas enquanto aceita outras sem questionar.

Não é difícil imaginar como isso pode ser usado para fins políticos e ideológicos. Afinal, ninguém é “contra pensar criticamente”, e muito menos quer ser visto como “alienado”, sendo, assim, uma ótima ferramenta retórica.

No fundo, se apresenta como mais um rótulo vazio, um flatus vocis repetido em demasia por pessoas intelectualmente desonestas, que se multiplicam com a falsa sensação de conhecimento atribuída pelo consumo massivo de informações.

Alcançar a verdade é adequar o intelecto à realidade. É dela, e não de premissas selecionadas conforme conveniência ideológica, que deve partir um pensamento correto. O verdadeiro pensar, portanto, seria aquele que aceita erros, corrige e almeja se submeter honestamente ao real.


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O pensamento crítico antes de iniciar seu trabalho deve ter seus próprios antecedentes e imperativos criticados e assim eliminar todo e qualquer SOFISMA. Quer uma crítica? Pois então, PAGUE POR ELA ! Nem relógio trabalha de graça ! Grátis é uma palavra perigosa! Não existe almoço grátis, alguém vai pagar a conta no final ! Quem será ?

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